sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Repatriados

Depois de conhecermos o Lago del Desierto em El Chaltén começamos nossa viagem de volta. Como já saímos tarde do albergue e gastamos mais de duas horas para ir e voltar do lago, sabiamos que nosso dia seria curto pra cobrir uma distância muito grande. Nosso objetivo principal era não pegarmos o trecho da saída para Puerto Deseado até Comodoro Rivadavia à noite por causa dos buracos, então decidimos viajar e decidir onde parar mais para o final da tarde. Na ida tinhamos visto algumas cidadezinhas que pareciam interessantes, então decidimos ficar em Puerto San Julian, uma cidade à beira do mar que é uma boa opção para ver a fauna marítima se você não puder ir à Ria Deseado. Como já tinhamos feito o passeio na Ria, decidimos só conhecer a cidade.

No dia seguinte já saimos de Puerto San Julian debaixo de chuva, que nos acompanhou até Caleta Olivia. No meio do caminho tomamos um susto ao cruzar com um caminhão, quando algo preto decolou e acertou nosso para-brisas. Achei que pudesse ter sido um pedaço de pneu, mas quando paramos em Comodoro Rivadavia descobri o que era. Entre o vento forte, chuva, alta velocidade e dos caminhões que cruzavam conosco, a grade da frente do carro - que já havia quebrado no rípio e estava presa com contact - decolou e se perdeu no meio da paisagem patagônica. Acho que ela compartilhava o mesmo desejo nosso de não querer voltar! =)

Em Comodoro Rivadavia tentei fazer a troca de óleo do carro (que já se aproximava dos 10.000 rodados desde Porto Alegre), e meu carro virou a sensação do posto. O Polo simplesmente não existe na Argentina (só o modelo antigo - Classic), e quando abri o capô para retirar os restos da grade - o que ainda estava preso com contact - juntaram vários curiosos para espiar o motor. Acho que se eu tivesse uma BMW não tinha atraido tanta gente! Como o serviço estava muito demorado e ainda queriam me cobrar um absurdo pelos filtros, decidi seguir viagem. Seguimos até Las Grutas neste dia e repetimos o programa da ida: mesmo hotel e restaurante, só mudando a uva do vinho pedido!

Para o norte de Las Grutas nossa viagem voltou a passar por terrenos que ainda não conheciamos, pois como não iamos voltar por Buenos Aires, seguimos direto pelo menor caminho, com a vantagem de evitar a "rota da propina" dos policiais corruptos de Entrerrios e Corrientes. Como desde Las Grutas estavamos com a troca de óleo atrasada, tentei fazer isso na primeira cidade grande por que passamos, mas tudo que consegui foi perder uma hora buscando algum lugar aberto, pois nessa região o horário é muito estranho: as lojas abrem de manhã e no final da tarde. Como não estavamos afim de perder tempo parados esperando, seguimos viagem até Rio Cuarto. Lá finalmente encontrei um lubricentro aberto, mas como não conheciam meu Polo, ficaram em dúvida sobre se teriam ou não o filtro de óleo. Me recomendaram que procurasse uma consessionária da Volks pra fazer a troca, mas obviamente eles não iam poder fazer o serviço no mesmo dia. Decidi comprar o filtro por lá e procurar outro lugar pra fazer a troca. Paramos num YPF para "almoçar" e consegui finalmente trocar o óleo, mas no total perdemos mais de duas horas no processo, o que nos impediu de seguir viagem até Paraná, primeira cidade de Entrerrios.

Paramos em San Francisco para dormir, e na manhã seguinte fomos ao supermercado local para tentar resolver nossas duas últimas pendências: vinhos e alfajores. Comprar os vinhos só foi complicado pra decidir entre tantas opções, e acabei resolvendo arriscar levar mais do que as 12 garrafas permitidas pela receita federal (6 por pessoa). Embalamos as garrafas usando o estoque de papel-higiênico que sobrou do nosso acampamento e contact (mil e uma utilidades). Os alfajores, por outro lado, provaram ser uma dificuldade. Em nossa volta, não encontramos nenhuma loja da Havanna ou lugar que vendesse seus alfajores.

Seguimos viagem até Parana, onde mais uma vez tentamos achar os alfajores. Comemos num McDonalds e descobrimos que lá as lojas também seguem o horário cortado, e quase não conseguimos comer, pois o McDonalds de lá só funciona até as 14:30. Depois de mais uma hora perdida, seguimos viagem por Entrerrios com a tensão nas alturas. Escondemos quase todo o dinheiro que tinhamos na bota da Jú para evitar possíveis achaques. Em Entrerrios fomos parados por uma blitz na estrada e já estava preparado pro pior, mas o policial só pediu a carteira de motorista e o seguro carta verde e nos liberou depois de ver que estava tudo em ordem. Poucas horas depois estavamos em Corrientes, onde encontramos um policial solitário em uma encruzilhada de estradas. Passamos devagar, mas quando viu que a placa era brasileira nos mandou parar. Perguntou de onde viemos e pra onde iamos, jogou uma conversa mole fora e depois nos pediu uma "ajuda" para a gasolina. Disse a ele que não tinha quase nada - e ele respondeu dizendo que aceitava reais - e mostrei a carteira com 16 pesos. Ele aceitou 6 e nos deixou seguir viagem.

Quase chegando em Passo de Los Libres, cidade na fronteira com o Brasil, tomamos o único susto da viagem: um ***** (coloque seu adjetivo preferido aqui) de um motorista resolveu desconsiderar nosso carro e ultrapassar três caminhões de uma só vez, e se eu não tivesse freado muito forte teriamos batido de frente, pois os acostamentos na Argentina não são asfaltados, e sair da estrada em alta velocidade não é uma opção. Sem nenhuma surpresa ví que a placa do distinto motorista era branca escrita em preto, com três letras e quatro números: carro brasileiro! Por isso que continuo dizendo: o pior do Brasil é o brasileiro! Chegando a Passo de Los Libres fomos tentar achar os Havannas pela última vez, mas sem sucesso. Entramos num mercado local pra ver as opções que tinhamos, mas os outros alfajores não são nem de longe tão bons... Como trocar os pesos que sobraram em uma casa de câmbio ia me dar um prejuizo grande, decidi arriscar mais um pouco e comprei algumas cervejas e mais duas garrafas de vinho. Pra nossa sorte, passamos direto pela aduana brasileira!

Chegamos em Uruguaiana às 20:30, finalmente em solo brasileiro, mas ainda estava cedo. Como a estrada estava muito boa, fomos seguindo viagem. Às 3:30, 630 km depois, estavamos em Porto Alegre, onde vamos ficar o final de semana. Segunda-feira iniciamos a perna final da viagem, indo em direção ao Rio. Já foram quase 14.000 km percorridos nestes 28 dias de viagem e ainda temos pouco mais de 1.500 km pela frente, mas não sabemos dizer se estamos cansados de viajar ou se queriamos mais. O que podemos dizer foi que adoramos a experiência, e repetiriamos a dose sem pensar duas vezes. Agora é só começar a planejar a "segunda parte" desta viagem, que vai nos levar à Bariloche, Santiago, Viña del Mar, Deserto do Atacama, Mendoza, Cordoba e Foz do Iguaçú, mas isso fica pra daqui alguns anos...

El Chaltén

El Chaltén é um pequeno vilarejo ao norte de El Calafate que é usado como base para os trekkings pela parte norte do parque nacional Los Glaciares. Ao fazer o check out do hotel de El Calafate encontramos uma família brasileira que estava fazendo o mesmo trajeto que fizemos em um Palio Weekend, partindo de Curitiba. Hoje estava lendo o blog deles e sinto uma ponta de inveja deles por não ter voltado pela Ruta 40 e por não ter uma máquina fotográfica tão boa quanto a deles! =)

Terminamos nosso café-da-manhã e partimos para Chaltén. Nos informamos na administração do parque sobre as trilhas disponíveis, e decidimos fazer a da Laguna Torre para tentarmos ver o cerro Torre e (mais) uma geleira. Depois de uma hora e meia de caminhada a Jú começou a se sentir mal e tivemos que abortar o passeio da metade. Voltamos pra cidade e fomos procurar um lugar pra ficar. Como nada na cidade aceitava cartão de crédito, decidimos ficar no albergue Rancho Grande (que aceitava cartão). Depois de um bom banho e uma boa "almojanta", pedimos uma cerveja e - pela primeira vez nessa viagem - ficamos de pés pra cima, de bobeira, lendo um livro.

Como o dia seguinte continuava nublado - e as núvens escondendo o cerro Fitz Roy - decidimos refazer a mesma trilha do dia anterior, indo até o final desta vez. Andando entre chuva e sol, chegamos na lagoa Torre após algumas horas de caminhada, quando o vento que vinha da geleira começou a trazer flocos de neve até nós. Almoçamos um pacote de biscoito olhando a lagoa e a geleira enquanto aguentamos o vento frio. Descemos o resto da trilha até a beira da lagoa, onde usei um dos vários blocos de gelo da margem no meu joelho. Fotos tiradas e joelho resfriado, começamos nosso trajeto de volta ao albérgue. Poucos minutos depois estavamos andando debaixo de neve, que nos acompanhou até o mirante. Depois de um rápido pit-stop no albergue fomos até uma micro-cervejaria experimentar a produção da casa e voltamos pro albergue.

No dia seguinte, como continuava nublado, começamos nosso trajeto de volta. Saimos do albergue e, antes de seguirmos viagem, fomos ao Lago del Desierto, depois de 40km de rípio. O lago é muito bonito, com água transparente e uma tonalidade esverdeada ao refletir a vegetação das montanhas que o cercam. Com certeza, é um trekking que valeria a pena ter feito se tivessemos tempo e joelho.

As fotos de El Chaltén estão aqui, aqui e aqui.

El Calafate


El Calafate é a base pra conhecer o ventisqueiro Perito Moreno, uma enorme geleira que faz parte do campo de gelo sul, o maior campo de gelo continental do mundo. Como quase todos os atrativos naturais da região, paga-se uma salgada entrada para conhecer o parque nacional Los Glaciares (AR$ 40.00/pessoa), mas vale a pena. O parque fica a cerca de 80km de distância da cidade, mas a Argentina tem investido pesadamente na pavimentação das estradas desta área, e hoje é possível chegar a El Calafate e ao parque nacional transitando apenas por asfalto.

Poucos quilômetros depois da entrada do parque chegamos ao primeiro mirante, de onde se pode observar o lago Argentino e a geleira bem ao fundo. Entre uma foto e outra encontramos um taxista de Porto Alegre que vive em El Calafate há quatro anos - uma das vantagens de ir no próprio carro é encontrar esse pessoal por ai! Fim de papo, seguimos adiante até o mirador seguinte e depois até o ventisqueiro em sí. Deixamos o carro no estacionamento e começamos o passeio pelas passarelas que dão acesso às proximidades da geleira.

Passeamos por todas as passarelas e depois ficamos no mirante mais próximo da geleira para esperar algum desprendimento de pedaços de gelo que caiam no lago, um espetáculo por sí só. Não pude confirmar com nenhum guarda-parque, mas tudo indica que a geleira já cresceu até alcançar as margens do lago Argentino, dividindo o lago em dois. Esse é um fenômeno cíclico (o último foi em 2006), e a melhor parte dele é a ruptura do gelo provocada pelo peso da água armazenada em um dos lados da geleira (o desnível entre os dois lados chega a mais de 30m). Vimos as fotos e o vídeo da ruptura de 2006 e lamentamos não estarmos por lá quando isso acontecer, mas ficamos satisfeitos de ver o desprendimento de alguns blocos.

O clima patagônico mostrou-se totalmente imprevisível como sempre, e quando pensamos que chegaria a nevar, as nuvens desapareceram e o céu ficou completamente azul. Ficamos mais de duas horas observando a geleira e esperando o gelo desabar na água, e sempre que pensavamos que já era hora de irmos, um novo bloco caia na água. Finalmente, vencidos pelo frio e pela fome, voltamos pra El Calafate pra procurar alguma outra coisa pra fazermos, mas descobrimos que a cidade não tem muitos atrativos fora o ventisqueiro Perito Moreno. Nos indicaram passear pela lagoa atrás da cidade, mas não achamos o passeio nada de mais. Como ainda tinhamos dias sobrando, decidimos partir para El Chaltén no dia seguinte.

As fotos deste dia estão aqui.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Torres del Paine

Saimos de Ushuaia e fomos direto até Punta Arenas no Chile, atrás da famosa Zona Franca pra comprarmos casacos decentes. Chegamos lá no final do dia, arrumamos uma hosteria bem legal e fomos jantar.

No dia seguinte fomos direto pra Zona Franca, que abre num horário bem curioso: 10 às 13 e 15 às 20, com direito a uma longa pausa pro almoco. Casacos comprados, corremos atrás da comida pro nosso camping e fomos pra Puerto Natales atrás de sacos de dormir pra alugar. Feito isso, corremos pro parque nacional de Torres del Paine pra comecar nossa aventura. Conseguimos localizar o camping depois de anoitecer, abrimos nossa barraca e fomos dormir, ou melhor, tentar dormir: deitar no chao duro é flórida! =)

Amanhecendo o dia, tomamos café e iniciamos nossa caminhada rumo às torres. Como era caminhada de dia inteiro, deixamos o acampamento armado e fomos só com um pouco de comida e água. Demoramos cerca de quatro horas pra chegarmos na base das torres, onde encontramos uma placa dizendo que faltavam apenas 45 minutos pra chegarmos ao mirador. Uma longa caminhada/escalada depois chegamos realmente na base das torres, que têm um lago em sua base e formam um cenário magnífico. Creio que se nao estivesse ventando tanto ficariamos umas boas horas parados só admirando as torres, mas como venta pra caramba no parque, comecamos a nossa volta pro acampamento. Como agora era quase tudo descida, acreditavamos que seria mais fácil. Chegamos no acampamento por volta das 20h, fechando o dia com quase dez horas de caminhada - metade disso parados pra Jú descansar!

O resultado desse dia nao foi dos melhores: meu joelho esquerdo doia muito e a Juliana tinha seis bolhas nos pés e dores no corpo todo. Depois de uma noite inteira onde pensavamos que iamos voar junto com a barraca (já falei do vento de lá?) e onde nao conseguia esticar a perna esquerda por conta da dor no joelho decidimos abortar o passeio, pro total alívio da Jú e minha decepcao total. Mas tudo bem: Torres del Paine já está anotada no meu mapa e ano que vem volto só pra fazer o circuito completo! (Ah, acampar de novo... que delícia... =P)

Saimos do parque, fomos conhecer la Cueva del Milodon, devolvemos os sacos de dormir e fomos pra El Calafate (Argentina) de onde escrevo agora. Vamos sair pra conhecer o parque agora, e depois temos que decidir o que faremos com os dias que "ganhamos" com o cancelamento das Torres... Se arrumarmos uma conexao internet decente eu coloco as fotos no Picasa.

Ushuaia

Post em teclado argentino. Nem todos os acentos estao disponiveis! =)

Ficamos três dias em Ushuaia para poder aproveitar bem a cidade. No primeiro, corremos atrás de casacos pra enfrentarmos o frio e acabamos comprando duas porcarias: os zipers do meu agarram, e os elásticos do da Jú arrebentaram no primeiro uso. Paciência! Casacos comprados, fomos direto pro Glaciar Martial, pista de esquí que já estava fechada pro esporte, mas que ainda oferecia o teleférico para uma caminhada pela montanha. Caminhamos pela neve por umas quatro horas montanha acima e montanha abaixo e voltamos pra cidade exaustos mas felizes. Meu joelho nesse dia comecou a dar sinais de que nao estava bem. Aproveitamos o final do dia pra conhecer um dos museus da cidade.

No segundo dia acordamos com uma chuva fina e decidimos nao ir pro parque nessas condicoes. Fomos conhecer os museus do Fim do Mundo e o antigo presídio e fomos conhecer a estância Harberton e seguir pela Ruta J até o início do canal Beagle.

No terceiro dia já saímos do hotel com sol e fomos direto pro parque nacional da Terra do Fogo. Caminhamos o dia todo pelas trilhas do parque e na última delas meu joelho finalmente cedeu. Foi divertido voltar da fronteira Chile/Argentina mancando e apoiado num galho, mas valeu a pena.

Finalizada Ushuaia, pegamos o carro bem cedo e partimos de volta pro Chile...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ushuaia, bienvenidos a la ciudad mas austral del mundo

Acordamos muito cedo hoje - até porque no lugar de cortina o quarto que pegamos tinha um véu - e partimos logo depois do café. Seguimos por duas horas no rípio chileno (que estava muito melhor do que eu esperava) e passamos pelas aduanas chilena e argentina em San Sebastian. De volta ao asfalto, gastamos pouco tempo pra chegarmos à cidade de Rio Grande, a primeira "grande" cidade argentina na Terra do Fogo. Como as placas aqui foram todas pichadas, nos perdemos e fomos passear pelo meio da cidade por uma hora, então podemos falar com autoridade: a cidade é muito, muito feia. Depois de sair da cidade achavamos que tinhamos feito besteira em vir pra Terra do Fogo, e que nossa maré de sorte em achar o lugar seguinte mais deslumbrante que o anterior tinha terminado.

Seguimos por mais alguns quilômetros sem nenhum atrativo, até que chegamos à Tolhuin. A partir deste ponto a paisagem mudou radicalmente: passamos a ver o final da cordilheira dos Andes ao fundo, e o deserto pouco-a-pouco passou a dar lugar a árvores. A partir daqui, a cada quilômetro nós paravamos pra tirar fotos. Em pouco tempo estavamos às margens do lago Fagano, que é cercado por montanhas e florestas e tem em suas margens praias de cascalho. Continuamos seguindo rumo à Ushuaia e fomos descobrindo novas paisagens: as montanhas cobertas de neve estavam cada vez mais próximas enquanto iamos passando por rios e lagos.

Logo a estrada começou a subir e fomos junto subindo as montanhas até as laterais da estrada estarem cercadas por neve. Eu sabia que era possível encontrarmos neve nessa época do ano, mas minhas esperanças de que isso acontecessem eram bem pequenas. Obviamente, tive que parar no acostamento pra ir conhecer a neve mais de perto! Minha primeira experiência foi logo enfiar a perna até a altura do joelho no primeiro passo que dei em um banco de neve bastante fofa. Passado o susto e conhecida a neve, voltei pro carro pra seguirmos viagem.

Finalmente - depois de mais de 7.000 km rodados desde o Rio de Janeiro - chegamos à Ushuaia. A cidade em sí me lembra um pouco Angra dos Reis: a cidade não é bonita, mas a paisagem ao redor é de se perder o fôlego. A cidade está às margens de uma baia cercada por montanhas nevadas. As águas do canal Beagle mais parecem um lago, pois não se vê ondas. O povo é educado e muito solícito.

Fomos direto procurar a secretaria de turismo pra obter informações dos passeios e buscar um mapa da cidade, e a mulher que nos atendeu nos deu absolutamente tudo que precisavamos e um pouco mais. De posse da lista - com preços - dos hoteis, fomos rodar a cidade pra descobrirmos onde iriamos ficar. No primeiro hotel que tentamos descobrimos que só havia quarto livre por duas noites, e nós precisavamos de três ou quatro. No seguinte, não havia quartos disponíveis, mas o sr. Frederico tentou nos arrumar um quarto em seu outro hotel, só pra descobrimos que era o hotel em que haviamos estado antes. Depois descobrimos que havia um quarto livre no segundo hotel a partir do dia seguinte, então decidimos ficar um noite no primeiro e as seguintes no outro e estava tudo certo. Depois de um longo de demorado banho pra nos livrarmos da sujeira acumulada do dia anterior, saímos pra jantar e descobrimos o Bodegón Fueguino, um simpático restaurante com um garçom (Javier) mais simpático ainda. Finalmente conseguimos comer o cordeiro e tomar o vinho patagônico que estavamos procurando desde Las Grutas, e não nos decepcionamos: a carne derretia na boca, e o vinho era muito bom.

As fotos de hoje estão aqui.

Terra do Fogo

Saimos de Puerto Deseado cedo pra pegar a estrada rumo ao sul, com um desvio planejado pra irmos aos bosques petrificados. Esse desvio nos levou por 50km em uma estrada de rípio muito boa e com uma paisagem deslumbrante. Na chegada ao parque fomos recepcionados por um dos guardas responsáveis pelo local, que com muita simpatia nos explicou sobre os bosques e sobre como deveriamos nos comportar dentro do parque: não sair dos caminhos demarcados e não encostar em nada.

O caminho completo pelo parque - a parte aberta ao público - nos tomou uns 45 minutos de caminhada em um dia quente, onde calça jeans e camiseta eram roupa demais. Foi muito interessante ver os fósseis de árvores transformados em pedra pelos anos, mas o que nos fascinou mesmo foi a paisagem que cerca o parque. O chão vermelho com as montanhas ao fundo compõem um quadro bem interessante, que de certa forma me lembra as imagens que já vimos do Grand Canyon norte-americano. Ao final da caminhada fomos conhecer o pequeno museu onde se encontram vários fósseis que foram encontrados no parque, que vão de pontas de flecha indígena a dentes de tubarões. Há também uma bancada com cerca de uma dúzia de árvores petrificadas que os visitantes podem pegar nas mãos.

Conseguimos voltar à Ruta 3 por volta das 14:30, e daí em diante foi sempre rumo ao sul o mais rapidamente possível. Às 20h já tinhamos saido da Argentina e adentrado território chileno, e seguimos rumo à balsa que nos levaria para a Terra do Fogo. Chegamos à balsa por volta das 22h, e pra nossa sorte ela havia acabado de chegar. Quinze minutos depois estavamos desembarcando na Terra do Fogo.

Fomos seguindo o asfalto até Cerro Sombrero, um pequeno lugarejo que fica exatamente onde termina a estrada de asfalto no território chileno, e tem apenas um hotel. É nessas horas que vemos os problemas que vêm com o monopólio: o quarto de casal aqui custava mais de 50% a mais do que o hotel mais caro em que haviamos ficado até então. Como o hotel estava absolutamente vazio - eramos os únicos hóspedes - optamos por ficar com o quarto com banheiro compartilhado pra economizar e fomos jantar. O restaurante do hotel era muito bom, e nos serviu o maior bife-a-cavalo que já comi em toda a minha vida, que com mais uma lata de cerveja nos custou cerca de R$25,00/pessoa. Quando voltamos ao quarto, descobrimos que não era tão bom assim: haviam cabelos espalhados em um dos travesseiros e outros na cama. Cansados demais pra prosseguirmos, descartamos a roupa de cama e fomos dormir, exaustos e sujos, pois depois daquilo não arriscamos usar o banheiro mais do que o absolutamente necessário. Acho que nunca a idéia de um camping me pareceu tão acolhedora antes... Mesmo assim estavamos felizes por já estarmos na Terra do Fogo.

As fotos deste dia estão aqui.

Ria Deseado

Logo depois do café fizemos o check-out do hotel e fomos procurar alguma empresa que fizesse excursões pela Ria e descobrimos a Expedições Darwin, que teria uma saída pelo estuário às 15h. Com mais de 4 horas pra matar, pegamos o carro e fomos conhecer a parte do estuário que não seria visitada na excursão. Além de muito mal sinalizada, o caminho era muito ruim, a ponto de acharmos que não passariamos por alguns pontos. Matamos as quatro horas nas estradas de terra e de rípio e voltamos pra Darwin.

Se a gente já achava que estava frio antes, quando o barco começou a andar vimos o que nos esperava: o vento chegava a cortar. Passamos umas duas horas rodando de barco pelo estuário e pudemos ver pássaros, lobos marinhos, pinguins e golfinhos. Terminada a excursão, voltamos pro hotel pra fazer um novo check-in. No dia seguinte partimos pra Terra do Fogo, mas isso fica pro próximo post.

As fotos de Puerto Deseado e do Ria Deseado estão aqui.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Gaiman & Punta Tombo

Post a quatro mãos!

Resolvemos encurtar a estada em Madryn pois realmente não tive coragem de ir mergulhar e encarar o vento em uma roupa molhada, ainda que seja uma roupa de neoprene. Em nosso último dia em Madryn caimos no erro de querer dormir um pouco mais antes de pegar a estrada, e já saímos do albergue às 10h. O Gustavo - dono/gerente do albergue - nos avisou que os primeiros quilômetros que pegariamos da Ruta 3 estavam sendo duplicados, e nos recomendou irmos devagar devido à grande quantidade de pó levantado na obra, além de nos sugerir um passeio por Gaiman, uma pequena cidade que foi colonizada por galeses, e até hoje mantém as tradições e estilo deste povo.

Logo descobrimos que o aviso sobre a estrada foi totalmente desnecessário, pois viamos a núvem de pó quilômetros a nossa frente, e imagino que andar dentro dela era o mesmo que andar no meio de uma tempestade de areia. Passado este trecho a estrada voltou ao seu normal e logo chegamos ao entroncamento para Gaiman. Indo direto ao escritório de turismo da cidade, descolamos um mapa e as informações sobre os principais pontos turísticos a se ver: um antigo túnel ferroviario - desativado, para se atravessar a pé e com lanterna -, a primeira casa da cidade, o antigo correio, o primeiro colégio, as capelas, as casas de chá, a praça central e os mirantes de onde se pode ver toda a cidade pelo alto. Deixamos o carro por lá e fomos direto pelo túnel, de lanterna na cabeça e sem enxergar mais do que três metros a nossa frente, passando pelas demais atrações uma após a outra.

Gaiman fica no vale do rio Chubut, e nesse ponto a paisagem da Patagônia muda radicalmente, com muitas árvores de um verde muito bonito. O árido deserto patagônico dá lugar a montanhas recobertas por pinheiros em uma mudança drástica, mas certamente para melhor!
A arquitetura da cidade e muito simpatica e com muitas casas em ótimo estado; a grande maioria revestida por pedras no exterior, o que dá a cidade um charme exclusivo e um clima bastante galês. Gastamos cerca de uma hora e meia para conhecer a cidade, e achamos melhor não irmos almoçar em uma das várias casas de chá da cidade - para a tristeza da Ju que insistiu que conhecessemos a cidade a fim de buscar um cafe da manha - por medo de não chegarmos a nosso destino a tempo. Voltamos à Ruta 3 por volta da uma da tarde, e seguimos por mais meia hora até a saída para Punta Tombo.

Punta Tombo é uma colônia de pinguins de magalhães que no auge do verão tem uma população de meio milhão. Fora desta época este número cai significativamente, mas ainda assim existem muitos pinguins por lá. O preço, como todos os parques nacionais argentinos até agora, é extremamente salgado para estrangeiros - AR$ 35/pessoa - mas acreditamos que valeu a pena ter pago isso tudo. Logo no início viamos pinguins a menos de dois metros de distância de nós. Um pouco mais a frente, um pinguim deitava preguiçosamente na passarela de madeira aproveitando o sol, e pudemos tirar algumas fotos junto com ele, que nem se importava com nossa presença. Pensavamos que seria tudo, mas na verdade a parte de Punta Tombo aberta ao público se extende por mais de um quilômetro. Neste caminho, é possível ver centenas de ninhos de pinguins com e sem seus ocupantes. Essas aves desengonçadas não se importam com a presença dos humanos, e não raro encontramos algumas rebolando enquanto cruzavam nosso caminho. Tínhamos a impressão de que eles estavam muito felizes com a nossa visita! Mais a frente pudemos chegar no topo de um rochedo que oferece a vista para a praia abaixo onde os pinguins nadam e saem da água, totalmente alheios ao frio que todos ao redor sentiam. Gastamos mais de uma hora nos divertindo com os pinguins, e saimos de Punta Tombo por volta das quatro e meia da tarde. Foi nesse ponto que vimos erramos ao não acordarmos mais cedo...

Ainda faltavam cerca de setecentos quilômetros até Puerto Deseado, e cerca de vinte deles no rípio. Em uma estimativa agressiva, se fizessemos média de 100km/h, chegariamos em nosso destino depois das onze da noite, sem saber aonde ficar e se haveriam hoteis abertos a esta hora. Decidimos apertar o passo e deixar pra decidir o que fariamos a medida em que a noite se aproximasse. Nossas opções pelo caminho eram poucas: Comodoro Rivadavia e Caleta Olivia. Rivadavia estava a cerca de 350 km de distância, e Caleta Olivia cerca de 100km depois. No início de nosso trajeto o vento resolveu colaborar e parou de jogar o carro de um lado pro outro, nos permitindo cubrir a distância até Rivadavia em menos de três horas. Nesse ponto, erramos novamente: ao invés de aproveitarmos o restante de luz do dia dirigindo, paramos para comer por uma meia-hora. O resultado é que saimos do posto de gasolina no meio da hora do rush local e só voltamos para a estrada - sinuosa e com trânsito pesado - já no início da noite. Passamos por Caleta Olivia e decidimos seguir em frente, só pra descobrir que o único trecho de estrada ruim que pegamos até agora fica entre este cidade e a saída para Puerto Deseado, e tinhamos que pegá-lo justo durante a noite. Pra fechar o dia com chave de ouro, chegando em Puerto Deseado passamos por um posto de polícia e, olhando para o policial que estava na estrada, não ví a placa de PARE no outro lado e passei direto, acendando para ele. Só depois de alguns metros ele fez sinal para que parasse (que ví pelo retrovisor por sorte), mas aí já era tarde. Completamente exausto, até agora não sei se fui multado ou não... Acho que só vou descobrir - se descobrir - quando for cruzar a fronteira...

Mesmo com as dificuldades que tivemos no final do dia, não nos arrependemos por ter parado em Gaiman e em Punta Tombo. Os dois certamente são paradas obrigatórias para quem passa por estas bandas. Colocamos as fotos aqui para que todos possam avaliar!

Peninsula Valdes

Dia 5 de outubro foi o dia 9 de nossa viagem, e também o dia de conhecer a Península Valdes. Saimos do hotel entre nove e dez horas e partimos para o norte pelas praias, numa estrada de rípio que passava por alguns mirantes interessantes para observar as baleias. Depois de poucos minutos no carro, chegamos na primeira praia e já achamos super legal poder observar duas baleias a cerca de trezentos metros da costa: era a praia de El Doradillo. Ficamos lá por uns quinze minutos só tirando fotos e observando. Depois de voltar pro carro ainda retornamos a El Doradillo por mais duas vezes, em pontos diferentes, pra poder olhar outras duas baleias que se aproximaram. Mais pra frente, achamos Punta Flecha, um mirante no alto de um penhasco todo feito pra se observar as baleias francas que vêm à Península todos os anos, mas de lá não vimos quase nada. Na última praia antes de seguirmos pra Península (El Pedregal) no entanto, ficamos bobos: as baleias não estavam mais a trezentos metros da praia, mas a menos de trinta. Era tão perto, mas tão perto, que só o frio absoluto que reina por lá impede que as pessoas nadem até elas. O resultado disso foi que ficamos mais de uma hora em pé na praia olhando e tirando fotos, sem a mínima vontade de irmos embora.

Voltamos ao asfalto por mais alguns quilômetros e chegamos na entrada do parque nacional da Península Valdes, onde tivemos que pagar a salgada entrada para estrangeiros (AR$ 45/pessoa). De lá fomos ao centro de visitantes para pegar mais informações sobre a península e partimos pra primeira parada: Isla de los Passaros. Apesar de bonito, o lugar não tem muitos atrativos: a ilha fica longe da costa o suficiente para não podermos ver nada sem um binóculo ou com o zoom da câmera. Sem nada pra ver, seguimos para Puerto Pyramides, uma micro-cidade (a única) dentro do parque para conhecer, comer alguma coisa e completar o tanque de combustível no único posto disponível no trajeto de cerca de duzentos quilômetros que se faz dentro do parque - e mais uns cem de volta à Madryn. Depois de um almoço/lanche super-rápido, decidimos não fazer o passeio de barco para observar as baleias pois achamos que não teriamos tempo para tudo, e as baleias são as mesmas que podemos observar em Abrolhos. Um rápido passeio pela cidade e partimos pra Punta Pyramides, uma loberia que estava quase deserta: apenas dois lobos marinhos estavam por lá.

Punta Delgada foi nosso próximo objetivo, e pra chegar lá foram pouco mais de setenta quilômetros no rípio. Lá encontramos uma praia coalhada de elefantes marinhos. De lá partimos rumo à Caleta Valdes, e no caminho encontramos mais elefantes marinhos e uma colônia de pinguins. Nesse ponto notamos que nosso dia estava curto demais, mas decidimos seguir à Punta Norte de qualquer maneira, mesmo sabendo que pegariamos um bom pedaço de rípio no cair da noite. Punta Norte é bonita, mas não é algo indispensável dentro da Península. Lá há uma colônia de lobos e elefantes, e na temporada das orcas dizem ser um bom ponto para avista-las. Nesta época, no entanto, foi bom para observar o Sol se pondo. Para fechar o dia, voltamos boa parte do caminho para a entrada do parque acompanhando o céu mudando de cor, em tons entre laranja e rosa. Algumas horas depois, estavamos de volta à Madryn comendo uma bela pizza acompanhada de uma pequena garrafa de 1l de Warsteiner. Creio que nem só de vinhos vive a Argentina...

sábado, 4 de outubro de 2008

Puerto Madryn

Hoje o dia quase começa mal, mas foi assim que realmente percebemos que estamos de férias: colocamos o despertador pras 8:30, mas não vimos que ele estava programado pra tocar apenas durante os dias úteis. Demos sorte e acordamos só 10 minutos atrasados, mas ainda a tempo de tomar café e de fazer o check-out no horário certo. Com o céu azul e sem nenhuma núvem a vista, saimos do hotel para rodar por Las Grutas. Claro que, mesmo com o sol brilhando, de manhã ainda faz muito frio por aqui, especialmente quando venta (98% do tempo).

As praias de Las Grutas são muito bonitas, com falésias ao longo de toda a costa e algumas penínsulas de pedras se projetando no oceano. Por toda a praia pequenos papagaios lutam contra o vento, muitas vezes resultando num empate que os deixam parados em pleno ar. Fora a praia, nada de novo pra ver, então seguimos a San Antonio Oeste pra conhecermos a cidade. Rodamos por alguns quilômetros dentro da cidade, mas nada de achar a praia ou indicações de que ela existia por perto. Tudo o que achamos foi uma pequena praia de rio, então nos demos por satisfeitos e seguimos rumo a Puerto Madryn, que estava a menos de 300 quilômetros de nós.

Duas horas e meia depois estavamos avistando o mar por cima de Madryn, numa vista que prometia. Dentro da cidade fomos direto ao escritório de turismo, e descobrimos que os hoteis que haviamos pesquisado antes já estavam lotados. Rodamos a cidade por uma meia-hora e encontramos um hostel que ainda tinha um quarto de casal com banheiro privado e fechamos nesse por 140 pesos - sem direito a café da manhã e sem internet (viva as cafeterias com Wi-Fi!). Hotel acertado, fomos procurar algum lugar pra almoçarmos, e ficamos numa lanchonete na beira da praia, onde pudemos saborear um hamburguer muito bem acompanhado por uma garrafa de 1l de Stella Artois.

Lanche feito, seguimos rumo à Punta Lomo pra ver os lobos marinhos e no caminho fomos apresentados ao rípio argentino. A condição da estrada é muito boa, mas o rípio escorrega bastante, e qualquer velocidade acima de 40 km/h levanta uma enorme quantidade de poeira, que torna difícil transitar atrás de outro carro. Fora isso, o rípio não parece ser nada pra se temer, e dirigindo com cuidado não devemos ter problemas. Como diz um certo amigo meu, respeito é bom e mantém os dentes na boca! Depois de comer poeira por alguns quilômetros, paramos numa praia e pudemos ver nossa primeira baleia, muuuuuuuitooo longe, mas deu pra vê-la brincar junto a um barco, hora exibindo a cauda, hora saindo da água. Algumas fotos depois, seguimos pra Punta Lomo, onde pudemos observar uma enorme colônia de lobos marinhos. Queriamos ficar mais tempo, mas acabamos expulsos pelo vento frio e cortante, que não dava trégua nem debaixo de casacos.

De volta à cidade, aproveitamos pra tomar um café e colocar o blog em dia. Descobrimos também que hoje batemos o récorde de fotos: 146. Creio que este récorde é temporário, pois se tudo der certo amanhã vamos visitar a Peninsula Valdez e Puerto Pyramides, e sair de barco pra vermos as baleias mais de perto.

Devemos ficar por Puerto Madryn mais uns dois dias, antes de pegarmos a estrada novamente pra conhecer Puerto Deseado. A cada dia Ushuaia fica mais próxima, mas nem por isso esta perto. Já foram mais de 4000 km rodados, mas ainda faltam 2000 até lá. Começo a pensar na volta... =)

Finalmente Patagônia!

Começamos o dia com um frio na barriga, pois a garagem do hotel na verdade era um edifício garagem associado ao hotel, e tivemos que deixar a chave do carro na mão de alguém que podia ser ou não um funcionário, com metade de nossa bagagem no carro (aí incluida a minha mala com todas as roupas de frio). Até onde pudemos notar, tudo permanece conosco... Uma volta rápida pela cidade pra conhecer melhor a orla, seguimos pela costa até Miramar, a uns 40 quilômetros de Mar del Plata. De lá, partimos pra estrada principal onde começou a tortura: ao contrário da Ruta 2, essa estrada tinha limite de 80 km/h. Um percurso que imaginei que fariamos em duas horas e meia nos tomou mais de três. Quando imaginei que tudo ficaria bem depois de Tres Arroyos, nova surpresa: a Ruta 3 também estava com limite de 80 km/h. Como nosso trajeto até Las Grutas tinha mais de 800 km, começamos a ficar mais tensos...

Mais algumas horas de estrada e contornamos Bahia Blanca e continuamos nosso trajeto rumo ao sul. Por volta das 14:30 chegamos à barreira sanitária que demarca o início da Patagônia. Dali pra frente, a viagem foi só alegria: a paisagem da Patagônia, ainda que desolada, é belissima, e a partir deste ponto o limite de velocidade passa para 110 km/h, provavelmente devido às retas sem fim que são as estradas por aqui. Mesmo assim, parece que eu era o único que seguia essa indicação: só conseguia ultrapassar caminhões, e os demais carros passavam por mim como se eu estivesse parado. Logo logo meus 110 foram virando 120, 130, 140... enfim, tornei-me um "local".

Por volta das 19:15 o sol finalmente começou a se por, num lento trajeto que foi até as 20h. Durante estes 45 minutos pudemos apreciar o por do sol mais bonito de nossas vidas. Aos que conhecem o por do sol do planalto, posso afirmar que este aqui - da planície - é muito mais bonito. O céu toma cores fantásticas, mesclando tons de azul com tons de vermelho e laranja, tornando algumas nuvens incandecentes e outras douradas. Tentamos tirar fotos deste espetáculo, mas nenhuma delas pôde fazer justiça ao que assistimos ao vivo. Simplesmente sensacional!

Por volta das 20:15, já escuro, avistamos ao fundo as luzes de uma cidade: era San Antonio Oeste, que se encontrava a 40 quilômetros de distância. Eu pensava que avistavamos Brasilia de longe quando ia pra lá de carro com meus pais, mas essa aqui bateu récordes! Aqui na Patagônia pela primeira vez pude olhar para todos os lados e ter a vista desempedida até o horizonte, 360 graus. Planície infinita!

Chegamos a Las Grutas por volta das 21h e fomos procurar um hotel e um restaurante pra fecharmos a noite, e terminamos jantando no cassino local acompanhados por um dos muitos bons Malbecs argentinos. Conhecer o balneário ficou para o dia seguinte, pois de noite não se via nada.

As fotos deste dia estão aqui.

Mar del Plata

Começamos o dia correndo atrás dos últimos acessórios necessários pra podermos viajar de carro pelas estradas argentinas: um kit de primeiros socorros e um cambão para reboque. Depois de visitarmos quatro farmácias finalmente encontramos o tal kit padrão, só pra descobrir que é algo mais inútil do que o antigo kit obrigatório no Brasil... Depois pegamos as indicações no hotel pra rua onde encontrariamos o cambão e partimos pelo trânsito portenho, que é realmente um inferno. Os motoristas de cá só perdem pros do Rio... Mas como costumo dizer (e infelizmente estou certo): quem dirige no Rio dirige em qualquer lugar. Depois de uns vinte minutos de trânsito - e na metade do caminho - descobrimos uma concessionária da Volks e partimos pra dentro. Lá o vendedor me informou que não vendiam somente o cambão, mas somente o "kit de securidad"completo. Resultado: estou com dois extintores, três ou quatro triângulos, dois kits de primeiros socorros que não servem de nada e um cambão que nunca devo usar! Mas melhor isso do que perder mais tempo parado no trânsito de Buenos Aires - foi o famoso pagar pra não se estressar.

Saindo de Buenos Aires entramos pela Ruta 2 que liga a cidade à Mar del Plata, com limite de velocidade variando entre 120 e 130 km/h. Depois do suplício de seguir o limite de velocidade no Uruguai, descobrir um limite alto por aqui foi ótimo! Depois de mais quatrocentos quilômetros de viagem, chegamos a Mar del Plata no final da tarde, com duas horas de claridade pela frente. Descobrimos o escritório da secretaria de turismo da cidade pra saber sobre hoteis mas a atendente - apesar de muy hermosa - não nos ajudou muito: a indicação que ela deu estamos procurando até agora! Passeamos um pouco pela praia, em frente ao cassino de Mar del Plata e por uma praça muito legal - há muito não via tantas crianças brincando numa. Depois, de guia na mão, saimos a caça de um hotel pra passarmos a noite. Encontramos um próximo da Peatonal San Martin, cuja internet sem fio mal chegava ao quinto andar (daí nosso último post).

Passeamos pela San Martin no final da noite pra tentar encontrar casacos, mas tudo que achamos foram cópias grosseiras de algumas marcas, que pra piorar não pareciam segurar frio algum. Resultado: até agora o único adereço contra o frio que compramos foi um gorro que me deixa com (ainda mais) cara de marginal! Fim de noite, encostamos numa pizzaria pra um programa de paulista: pizza e cerveja!

As fotos desse dia estão aqui.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Punta del Este a Buenos Aires

Ontem fiquei devendo um relato mais consistente sobre nossa travessia de Punta à Buenos Aires devido à hora em que voltamos pro hotel, então vamos lá!

Saindo de Punta, depois de poucos quilômetros, fomos à Punta Ballena, uma península com uma vista direta pra Punta. Passada rápida, decidimos só parar pra umas fotos e não entrar na Casa Pueblo, um mega-resort localizado lá, que conta com um museu. Preferimos seguir direto pra conseguirmos mais tempo para conhecer Colonia del Sacramento, o equivalente uruguaio à nossa Paraty. Pegando chuva ocasionalmente, seguimos para Colonia com a passagem do buque comprada pras 17:0, o que significava que tinhamos até 16:30 para estar no porto prontos pra embarcar.

Chegamos em Colonia por volta das 14:30 e paramos no escritório da secretaria de turismo pra pegar informações sobre a cidade e sobre o que conhecer. Como o tempo era muito curto, decidimos sacrificar o almoço pra ter mais tempo pra passear pela cidade. Infelizmente, nessa hora a chuva começou a cair forte, o que significava conhecer a cidade de carro e guardas-chuva. Seguimos pela orla pra conhecer a "praia" do rio, seguimos pra uma praça de touros antiga - e abandonada, literalmente caindo -, pra uma igreja muy hermosa e finalmente pro bairro histórico.

O bairro histórico é muito bonito, com casas que lembram Paraty e algumas ruinas de casas dos tempos em que Colonia era de fato uma colônia portuguesa. Outra atração foi subir num antigo farol para tirar algumas fotos panorâmicas da cidade lá do alto. Foram mais de 150 degraus, mas valeu a pena: a cidade vista lá de cima é ainda mais legal do que vendo do chão. Depois de mais uma volta pelo bairro, era chegada a hora de irmos pro porto.


No porto, colocamos o carro na fila e fomos fazer o check-in. No caixa, nova surpresa: a taxa portuaria só podia ser paga em pesos uruguaios ou argentinos, embora o policial lá fora tenha me dito que aceitavam cartões de crédito e reais. Quase ficamos no Uruguai, pois tive que raspar a carteira e literalmente dar nossas últimas moedas. Fora isso, a viagem foi ótima. No desembarque argentino nosso policial da aduana estava tão mais preocupado em falar no celular que não nos pediu nem mesmo pra ver as malas. Passamos rapidamente pelas ruas de Buenos Aires até o hotel e fomos passear pela Florida para comprar nosso guia YPF. De lá seguimos pra Puerto Madero pra recordar nossa primeira passagem por Buenos Aires, fazendo uma janta excelente como da primeira vez. Realmente, falta no Rio um lugar como Puerto Madero, onde se pode caminhar despreocupado às altas horas da noite, sentar na varanda de um restaurante pra jantar e tomar um vinho e apreciar a paisagem e o rio passando a alguns metros de você. Uma pena. Feito tudo isso, voltamos pro hotel onde nossa cama nos esperava convidativamente!
Hoje já estamos em Mar del Plata, e esse dia merece um post separado, mas a conexão do hotel está muito ruim. Se não conseguirmos postar hoje, tentamos da próxima vez.

Buenos Aires

Resumo de hoje: Punta del Este, Colonia del Sacramento, Buenos Aires. Como "hoje já é amanhã", esse post vai ficar só no resumo! Fotos de hoje disponíveis aqui! Amanhã vamos a Mar del Plata. Se tivermos internet, juro que tento detalhar o dia de hoje!