sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Repatriados

Depois de conhecermos o Lago del Desierto em El Chaltén começamos nossa viagem de volta. Como já saímos tarde do albergue e gastamos mais de duas horas para ir e voltar do lago, sabiamos que nosso dia seria curto pra cobrir uma distância muito grande. Nosso objetivo principal era não pegarmos o trecho da saída para Puerto Deseado até Comodoro Rivadavia à noite por causa dos buracos, então decidimos viajar e decidir onde parar mais para o final da tarde. Na ida tinhamos visto algumas cidadezinhas que pareciam interessantes, então decidimos ficar em Puerto San Julian, uma cidade à beira do mar que é uma boa opção para ver a fauna marítima se você não puder ir à Ria Deseado. Como já tinhamos feito o passeio na Ria, decidimos só conhecer a cidade.

No dia seguinte já saimos de Puerto San Julian debaixo de chuva, que nos acompanhou até Caleta Olivia. No meio do caminho tomamos um susto ao cruzar com um caminhão, quando algo preto decolou e acertou nosso para-brisas. Achei que pudesse ter sido um pedaço de pneu, mas quando paramos em Comodoro Rivadavia descobri o que era. Entre o vento forte, chuva, alta velocidade e dos caminhões que cruzavam conosco, a grade da frente do carro - que já havia quebrado no rípio e estava presa com contact - decolou e se perdeu no meio da paisagem patagônica. Acho que ela compartilhava o mesmo desejo nosso de não querer voltar! =)

Em Comodoro Rivadavia tentei fazer a troca de óleo do carro (que já se aproximava dos 10.000 rodados desde Porto Alegre), e meu carro virou a sensação do posto. O Polo simplesmente não existe na Argentina (só o modelo antigo - Classic), e quando abri o capô para retirar os restos da grade - o que ainda estava preso com contact - juntaram vários curiosos para espiar o motor. Acho que se eu tivesse uma BMW não tinha atraido tanta gente! Como o serviço estava muito demorado e ainda queriam me cobrar um absurdo pelos filtros, decidi seguir viagem. Seguimos até Las Grutas neste dia e repetimos o programa da ida: mesmo hotel e restaurante, só mudando a uva do vinho pedido!

Para o norte de Las Grutas nossa viagem voltou a passar por terrenos que ainda não conheciamos, pois como não iamos voltar por Buenos Aires, seguimos direto pelo menor caminho, com a vantagem de evitar a "rota da propina" dos policiais corruptos de Entrerrios e Corrientes. Como desde Las Grutas estavamos com a troca de óleo atrasada, tentei fazer isso na primeira cidade grande por que passamos, mas tudo que consegui foi perder uma hora buscando algum lugar aberto, pois nessa região o horário é muito estranho: as lojas abrem de manhã e no final da tarde. Como não estavamos afim de perder tempo parados esperando, seguimos viagem até Rio Cuarto. Lá finalmente encontrei um lubricentro aberto, mas como não conheciam meu Polo, ficaram em dúvida sobre se teriam ou não o filtro de óleo. Me recomendaram que procurasse uma consessionária da Volks pra fazer a troca, mas obviamente eles não iam poder fazer o serviço no mesmo dia. Decidi comprar o filtro por lá e procurar outro lugar pra fazer a troca. Paramos num YPF para "almoçar" e consegui finalmente trocar o óleo, mas no total perdemos mais de duas horas no processo, o que nos impediu de seguir viagem até Paraná, primeira cidade de Entrerrios.

Paramos em San Francisco para dormir, e na manhã seguinte fomos ao supermercado local para tentar resolver nossas duas últimas pendências: vinhos e alfajores. Comprar os vinhos só foi complicado pra decidir entre tantas opções, e acabei resolvendo arriscar levar mais do que as 12 garrafas permitidas pela receita federal (6 por pessoa). Embalamos as garrafas usando o estoque de papel-higiênico que sobrou do nosso acampamento e contact (mil e uma utilidades). Os alfajores, por outro lado, provaram ser uma dificuldade. Em nossa volta, não encontramos nenhuma loja da Havanna ou lugar que vendesse seus alfajores.

Seguimos viagem até Parana, onde mais uma vez tentamos achar os alfajores. Comemos num McDonalds e descobrimos que lá as lojas também seguem o horário cortado, e quase não conseguimos comer, pois o McDonalds de lá só funciona até as 14:30. Depois de mais uma hora perdida, seguimos viagem por Entrerrios com a tensão nas alturas. Escondemos quase todo o dinheiro que tinhamos na bota da Jú para evitar possíveis achaques. Em Entrerrios fomos parados por uma blitz na estrada e já estava preparado pro pior, mas o policial só pediu a carteira de motorista e o seguro carta verde e nos liberou depois de ver que estava tudo em ordem. Poucas horas depois estavamos em Corrientes, onde encontramos um policial solitário em uma encruzilhada de estradas. Passamos devagar, mas quando viu que a placa era brasileira nos mandou parar. Perguntou de onde viemos e pra onde iamos, jogou uma conversa mole fora e depois nos pediu uma "ajuda" para a gasolina. Disse a ele que não tinha quase nada - e ele respondeu dizendo que aceitava reais - e mostrei a carteira com 16 pesos. Ele aceitou 6 e nos deixou seguir viagem.

Quase chegando em Passo de Los Libres, cidade na fronteira com o Brasil, tomamos o único susto da viagem: um ***** (coloque seu adjetivo preferido aqui) de um motorista resolveu desconsiderar nosso carro e ultrapassar três caminhões de uma só vez, e se eu não tivesse freado muito forte teriamos batido de frente, pois os acostamentos na Argentina não são asfaltados, e sair da estrada em alta velocidade não é uma opção. Sem nenhuma surpresa ví que a placa do distinto motorista era branca escrita em preto, com três letras e quatro números: carro brasileiro! Por isso que continuo dizendo: o pior do Brasil é o brasileiro! Chegando a Passo de Los Libres fomos tentar achar os Havannas pela última vez, mas sem sucesso. Entramos num mercado local pra ver as opções que tinhamos, mas os outros alfajores não são nem de longe tão bons... Como trocar os pesos que sobraram em uma casa de câmbio ia me dar um prejuizo grande, decidi arriscar mais um pouco e comprei algumas cervejas e mais duas garrafas de vinho. Pra nossa sorte, passamos direto pela aduana brasileira!

Chegamos em Uruguaiana às 20:30, finalmente em solo brasileiro, mas ainda estava cedo. Como a estrada estava muito boa, fomos seguindo viagem. Às 3:30, 630 km depois, estavamos em Porto Alegre, onde vamos ficar o final de semana. Segunda-feira iniciamos a perna final da viagem, indo em direção ao Rio. Já foram quase 14.000 km percorridos nestes 28 dias de viagem e ainda temos pouco mais de 1.500 km pela frente, mas não sabemos dizer se estamos cansados de viajar ou se queriamos mais. O que podemos dizer foi que adoramos a experiência, e repetiriamos a dose sem pensar duas vezes. Agora é só começar a planejar a "segunda parte" desta viagem, que vai nos levar à Bariloche, Santiago, Viña del Mar, Deserto do Atacama, Mendoza, Cordoba e Foz do Iguaçú, mas isso fica pra daqui alguns anos...

El Chaltén

El Chaltén é um pequeno vilarejo ao norte de El Calafate que é usado como base para os trekkings pela parte norte do parque nacional Los Glaciares. Ao fazer o check out do hotel de El Calafate encontramos uma família brasileira que estava fazendo o mesmo trajeto que fizemos em um Palio Weekend, partindo de Curitiba. Hoje estava lendo o blog deles e sinto uma ponta de inveja deles por não ter voltado pela Ruta 40 e por não ter uma máquina fotográfica tão boa quanto a deles! =)

Terminamos nosso café-da-manhã e partimos para Chaltén. Nos informamos na administração do parque sobre as trilhas disponíveis, e decidimos fazer a da Laguna Torre para tentarmos ver o cerro Torre e (mais) uma geleira. Depois de uma hora e meia de caminhada a Jú começou a se sentir mal e tivemos que abortar o passeio da metade. Voltamos pra cidade e fomos procurar um lugar pra ficar. Como nada na cidade aceitava cartão de crédito, decidimos ficar no albergue Rancho Grande (que aceitava cartão). Depois de um bom banho e uma boa "almojanta", pedimos uma cerveja e - pela primeira vez nessa viagem - ficamos de pés pra cima, de bobeira, lendo um livro.

Como o dia seguinte continuava nublado - e as núvens escondendo o cerro Fitz Roy - decidimos refazer a mesma trilha do dia anterior, indo até o final desta vez. Andando entre chuva e sol, chegamos na lagoa Torre após algumas horas de caminhada, quando o vento que vinha da geleira começou a trazer flocos de neve até nós. Almoçamos um pacote de biscoito olhando a lagoa e a geleira enquanto aguentamos o vento frio. Descemos o resto da trilha até a beira da lagoa, onde usei um dos vários blocos de gelo da margem no meu joelho. Fotos tiradas e joelho resfriado, começamos nosso trajeto de volta ao albérgue. Poucos minutos depois estavamos andando debaixo de neve, que nos acompanhou até o mirante. Depois de um rápido pit-stop no albergue fomos até uma micro-cervejaria experimentar a produção da casa e voltamos pro albergue.

No dia seguinte, como continuava nublado, começamos nosso trajeto de volta. Saimos do albergue e, antes de seguirmos viagem, fomos ao Lago del Desierto, depois de 40km de rípio. O lago é muito bonito, com água transparente e uma tonalidade esverdeada ao refletir a vegetação das montanhas que o cercam. Com certeza, é um trekking que valeria a pena ter feito se tivessemos tempo e joelho.

As fotos de El Chaltén estão aqui, aqui e aqui.

El Calafate


El Calafate é a base pra conhecer o ventisqueiro Perito Moreno, uma enorme geleira que faz parte do campo de gelo sul, o maior campo de gelo continental do mundo. Como quase todos os atrativos naturais da região, paga-se uma salgada entrada para conhecer o parque nacional Los Glaciares (AR$ 40.00/pessoa), mas vale a pena. O parque fica a cerca de 80km de distância da cidade, mas a Argentina tem investido pesadamente na pavimentação das estradas desta área, e hoje é possível chegar a El Calafate e ao parque nacional transitando apenas por asfalto.

Poucos quilômetros depois da entrada do parque chegamos ao primeiro mirante, de onde se pode observar o lago Argentino e a geleira bem ao fundo. Entre uma foto e outra encontramos um taxista de Porto Alegre que vive em El Calafate há quatro anos - uma das vantagens de ir no próprio carro é encontrar esse pessoal por ai! Fim de papo, seguimos adiante até o mirador seguinte e depois até o ventisqueiro em sí. Deixamos o carro no estacionamento e começamos o passeio pelas passarelas que dão acesso às proximidades da geleira.

Passeamos por todas as passarelas e depois ficamos no mirante mais próximo da geleira para esperar algum desprendimento de pedaços de gelo que caiam no lago, um espetáculo por sí só. Não pude confirmar com nenhum guarda-parque, mas tudo indica que a geleira já cresceu até alcançar as margens do lago Argentino, dividindo o lago em dois. Esse é um fenômeno cíclico (o último foi em 2006), e a melhor parte dele é a ruptura do gelo provocada pelo peso da água armazenada em um dos lados da geleira (o desnível entre os dois lados chega a mais de 30m). Vimos as fotos e o vídeo da ruptura de 2006 e lamentamos não estarmos por lá quando isso acontecer, mas ficamos satisfeitos de ver o desprendimento de alguns blocos.

O clima patagônico mostrou-se totalmente imprevisível como sempre, e quando pensamos que chegaria a nevar, as nuvens desapareceram e o céu ficou completamente azul. Ficamos mais de duas horas observando a geleira e esperando o gelo desabar na água, e sempre que pensavamos que já era hora de irmos, um novo bloco caia na água. Finalmente, vencidos pelo frio e pela fome, voltamos pra El Calafate pra procurar alguma outra coisa pra fazermos, mas descobrimos que a cidade não tem muitos atrativos fora o ventisqueiro Perito Moreno. Nos indicaram passear pela lagoa atrás da cidade, mas não achamos o passeio nada de mais. Como ainda tinhamos dias sobrando, decidimos partir para El Chaltén no dia seguinte.

As fotos deste dia estão aqui.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Torres del Paine

Saimos de Ushuaia e fomos direto até Punta Arenas no Chile, atrás da famosa Zona Franca pra comprarmos casacos decentes. Chegamos lá no final do dia, arrumamos uma hosteria bem legal e fomos jantar.

No dia seguinte fomos direto pra Zona Franca, que abre num horário bem curioso: 10 às 13 e 15 às 20, com direito a uma longa pausa pro almoco. Casacos comprados, corremos atrás da comida pro nosso camping e fomos pra Puerto Natales atrás de sacos de dormir pra alugar. Feito isso, corremos pro parque nacional de Torres del Paine pra comecar nossa aventura. Conseguimos localizar o camping depois de anoitecer, abrimos nossa barraca e fomos dormir, ou melhor, tentar dormir: deitar no chao duro é flórida! =)

Amanhecendo o dia, tomamos café e iniciamos nossa caminhada rumo às torres. Como era caminhada de dia inteiro, deixamos o acampamento armado e fomos só com um pouco de comida e água. Demoramos cerca de quatro horas pra chegarmos na base das torres, onde encontramos uma placa dizendo que faltavam apenas 45 minutos pra chegarmos ao mirador. Uma longa caminhada/escalada depois chegamos realmente na base das torres, que têm um lago em sua base e formam um cenário magnífico. Creio que se nao estivesse ventando tanto ficariamos umas boas horas parados só admirando as torres, mas como venta pra caramba no parque, comecamos a nossa volta pro acampamento. Como agora era quase tudo descida, acreditavamos que seria mais fácil. Chegamos no acampamento por volta das 20h, fechando o dia com quase dez horas de caminhada - metade disso parados pra Jú descansar!

O resultado desse dia nao foi dos melhores: meu joelho esquerdo doia muito e a Juliana tinha seis bolhas nos pés e dores no corpo todo. Depois de uma noite inteira onde pensavamos que iamos voar junto com a barraca (já falei do vento de lá?) e onde nao conseguia esticar a perna esquerda por conta da dor no joelho decidimos abortar o passeio, pro total alívio da Jú e minha decepcao total. Mas tudo bem: Torres del Paine já está anotada no meu mapa e ano que vem volto só pra fazer o circuito completo! (Ah, acampar de novo... que delícia... =P)

Saimos do parque, fomos conhecer la Cueva del Milodon, devolvemos os sacos de dormir e fomos pra El Calafate (Argentina) de onde escrevo agora. Vamos sair pra conhecer o parque agora, e depois temos que decidir o que faremos com os dias que "ganhamos" com o cancelamento das Torres... Se arrumarmos uma conexao internet decente eu coloco as fotos no Picasa.

Ushuaia

Post em teclado argentino. Nem todos os acentos estao disponiveis! =)

Ficamos três dias em Ushuaia para poder aproveitar bem a cidade. No primeiro, corremos atrás de casacos pra enfrentarmos o frio e acabamos comprando duas porcarias: os zipers do meu agarram, e os elásticos do da Jú arrebentaram no primeiro uso. Paciência! Casacos comprados, fomos direto pro Glaciar Martial, pista de esquí que já estava fechada pro esporte, mas que ainda oferecia o teleférico para uma caminhada pela montanha. Caminhamos pela neve por umas quatro horas montanha acima e montanha abaixo e voltamos pra cidade exaustos mas felizes. Meu joelho nesse dia comecou a dar sinais de que nao estava bem. Aproveitamos o final do dia pra conhecer um dos museus da cidade.

No segundo dia acordamos com uma chuva fina e decidimos nao ir pro parque nessas condicoes. Fomos conhecer os museus do Fim do Mundo e o antigo presídio e fomos conhecer a estância Harberton e seguir pela Ruta J até o início do canal Beagle.

No terceiro dia já saímos do hotel com sol e fomos direto pro parque nacional da Terra do Fogo. Caminhamos o dia todo pelas trilhas do parque e na última delas meu joelho finalmente cedeu. Foi divertido voltar da fronteira Chile/Argentina mancando e apoiado num galho, mas valeu a pena.

Finalizada Ushuaia, pegamos o carro bem cedo e partimos de volta pro Chile...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ushuaia, bienvenidos a la ciudad mas austral del mundo

Acordamos muito cedo hoje - até porque no lugar de cortina o quarto que pegamos tinha um véu - e partimos logo depois do café. Seguimos por duas horas no rípio chileno (que estava muito melhor do que eu esperava) e passamos pelas aduanas chilena e argentina em San Sebastian. De volta ao asfalto, gastamos pouco tempo pra chegarmos à cidade de Rio Grande, a primeira "grande" cidade argentina na Terra do Fogo. Como as placas aqui foram todas pichadas, nos perdemos e fomos passear pelo meio da cidade por uma hora, então podemos falar com autoridade: a cidade é muito, muito feia. Depois de sair da cidade achavamos que tinhamos feito besteira em vir pra Terra do Fogo, e que nossa maré de sorte em achar o lugar seguinte mais deslumbrante que o anterior tinha terminado.

Seguimos por mais alguns quilômetros sem nenhum atrativo, até que chegamos à Tolhuin. A partir deste ponto a paisagem mudou radicalmente: passamos a ver o final da cordilheira dos Andes ao fundo, e o deserto pouco-a-pouco passou a dar lugar a árvores. A partir daqui, a cada quilômetro nós paravamos pra tirar fotos. Em pouco tempo estavamos às margens do lago Fagano, que é cercado por montanhas e florestas e tem em suas margens praias de cascalho. Continuamos seguindo rumo à Ushuaia e fomos descobrindo novas paisagens: as montanhas cobertas de neve estavam cada vez mais próximas enquanto iamos passando por rios e lagos.

Logo a estrada começou a subir e fomos junto subindo as montanhas até as laterais da estrada estarem cercadas por neve. Eu sabia que era possível encontrarmos neve nessa época do ano, mas minhas esperanças de que isso acontecessem eram bem pequenas. Obviamente, tive que parar no acostamento pra ir conhecer a neve mais de perto! Minha primeira experiência foi logo enfiar a perna até a altura do joelho no primeiro passo que dei em um banco de neve bastante fofa. Passado o susto e conhecida a neve, voltei pro carro pra seguirmos viagem.

Finalmente - depois de mais de 7.000 km rodados desde o Rio de Janeiro - chegamos à Ushuaia. A cidade em sí me lembra um pouco Angra dos Reis: a cidade não é bonita, mas a paisagem ao redor é de se perder o fôlego. A cidade está às margens de uma baia cercada por montanhas nevadas. As águas do canal Beagle mais parecem um lago, pois não se vê ondas. O povo é educado e muito solícito.

Fomos direto procurar a secretaria de turismo pra obter informações dos passeios e buscar um mapa da cidade, e a mulher que nos atendeu nos deu absolutamente tudo que precisavamos e um pouco mais. De posse da lista - com preços - dos hoteis, fomos rodar a cidade pra descobrirmos onde iriamos ficar. No primeiro hotel que tentamos descobrimos que só havia quarto livre por duas noites, e nós precisavamos de três ou quatro. No seguinte, não havia quartos disponíveis, mas o sr. Frederico tentou nos arrumar um quarto em seu outro hotel, só pra descobrimos que era o hotel em que haviamos estado antes. Depois descobrimos que havia um quarto livre no segundo hotel a partir do dia seguinte, então decidimos ficar um noite no primeiro e as seguintes no outro e estava tudo certo. Depois de um longo de demorado banho pra nos livrarmos da sujeira acumulada do dia anterior, saímos pra jantar e descobrimos o Bodegón Fueguino, um simpático restaurante com um garçom (Javier) mais simpático ainda. Finalmente conseguimos comer o cordeiro e tomar o vinho patagônico que estavamos procurando desde Las Grutas, e não nos decepcionamos: a carne derretia na boca, e o vinho era muito bom.

As fotos de hoje estão aqui.

Terra do Fogo

Saimos de Puerto Deseado cedo pra pegar a estrada rumo ao sul, com um desvio planejado pra irmos aos bosques petrificados. Esse desvio nos levou por 50km em uma estrada de rípio muito boa e com uma paisagem deslumbrante. Na chegada ao parque fomos recepcionados por um dos guardas responsáveis pelo local, que com muita simpatia nos explicou sobre os bosques e sobre como deveriamos nos comportar dentro do parque: não sair dos caminhos demarcados e não encostar em nada.

O caminho completo pelo parque - a parte aberta ao público - nos tomou uns 45 minutos de caminhada em um dia quente, onde calça jeans e camiseta eram roupa demais. Foi muito interessante ver os fósseis de árvores transformados em pedra pelos anos, mas o que nos fascinou mesmo foi a paisagem que cerca o parque. O chão vermelho com as montanhas ao fundo compõem um quadro bem interessante, que de certa forma me lembra as imagens que já vimos do Grand Canyon norte-americano. Ao final da caminhada fomos conhecer o pequeno museu onde se encontram vários fósseis que foram encontrados no parque, que vão de pontas de flecha indígena a dentes de tubarões. Há também uma bancada com cerca de uma dúzia de árvores petrificadas que os visitantes podem pegar nas mãos.

Conseguimos voltar à Ruta 3 por volta das 14:30, e daí em diante foi sempre rumo ao sul o mais rapidamente possível. Às 20h já tinhamos saido da Argentina e adentrado território chileno, e seguimos rumo à balsa que nos levaria para a Terra do Fogo. Chegamos à balsa por volta das 22h, e pra nossa sorte ela havia acabado de chegar. Quinze minutos depois estavamos desembarcando na Terra do Fogo.

Fomos seguindo o asfalto até Cerro Sombrero, um pequeno lugarejo que fica exatamente onde termina a estrada de asfalto no território chileno, e tem apenas um hotel. É nessas horas que vemos os problemas que vêm com o monopólio: o quarto de casal aqui custava mais de 50% a mais do que o hotel mais caro em que haviamos ficado até então. Como o hotel estava absolutamente vazio - eramos os únicos hóspedes - optamos por ficar com o quarto com banheiro compartilhado pra economizar e fomos jantar. O restaurante do hotel era muito bom, e nos serviu o maior bife-a-cavalo que já comi em toda a minha vida, que com mais uma lata de cerveja nos custou cerca de R$25,00/pessoa. Quando voltamos ao quarto, descobrimos que não era tão bom assim: haviam cabelos espalhados em um dos travesseiros e outros na cama. Cansados demais pra prosseguirmos, descartamos a roupa de cama e fomos dormir, exaustos e sujos, pois depois daquilo não arriscamos usar o banheiro mais do que o absolutamente necessário. Acho que nunca a idéia de um camping me pareceu tão acolhedora antes... Mesmo assim estavamos felizes por já estarmos na Terra do Fogo.

As fotos deste dia estão aqui.